AQUILO TEATRO


6- Escrita Criativa “Página Branca”

Publicado em 1 por aquiloteatro em Outubro 15, 2009

Blog texto de celina 1

Escrever sobre uma situação no café, na esplanada, no jardim, ou no local de trabalho à qual assistimos:

Eram 10 da manhã e já tinha atendido alguns clientes na loja. Estava ciente de que algo se iria passar, como já é habitual; alguém querer fazer um mimo a um ente querido ou, por outras razões, minimizar a dor de quem vê um familiar partir. Neste caso, foi diferente, mas nada de anormal. Casos que acontecem frequentemente, num sítio onde quase tudo se resume a um simples acto: colorir a aura dos vivos ou dos mortos; neste caso, a dos vivos. Um homem de baixa estatura, aproximadamente 25 a 30 anos, com um ar abatido, veio à procura de uma solução; algo que o ajudasse a abrir uma porta para a resolução do seu problema. A ocasião pedia algo delicado, uma vez que a intenção era pedir desculpa por um acto impulsivo. Em resposta ao seu pedido, sugeri uma rosa branca, já sabendo, segundo ele, não querer gastar mais de 3€. O acto era de baixo custo, mas não de menor importância, por isso, dediquei-me ao máximo. Ele deu algumas sugestões para o arranjo; confesso que faltava um pouco de estética, mas o cliente é quem manda e o importante é que ele tenha saído realizado e com esperanças. Disse-lhe que já ia bem acompanhado e desejei-lhe ” Boa sorte”!

Valdir Lopes

“Aproxima-se a hora de chegada do autocarro. Os jovens, com sacos a tiracolo flácidos e cadernos moles na mão, esperam ansiosos pela boleia para casa. Não são os únicos – muitos adultos estão timidamente apartados deles.

Há uma mulher, por exemplo, junto a uma árvore que se debruça para a estrada. Tem uma mochila desportiva caída aos seus pés e ergue o olhar em direcção dos adolescentes que aproveitam as sombras vespertinas das casas e do ponto de paragem. O vento transporta-lhe as palavras dos estudantes; por mais que se esforce, poucas fazem sentido. Vê uma rapariga loura que fala melifluamente ao telefone com alguém que decerto adora. Consegue surpreender um trio de rapazes, mais próximo de si, a discutir sobre como abordar moças.

Um autocarro atravessa vagarosamente a rotunda, mas não pára junto da paragem. A mulher interessa-se por uma outra conversa juvenil e animada: aparentemente, está lá uma pequena que perdeu três vezes o transporte público nesse dia, e esta vê o atraso do autocarro como um sinal dos céus.

Mas, enfim, a mulher não se importa com os dramas da idade do armário, e decide virar a atenção para a política, escutando um debate de opiniões que a aragem gentilmente lhe traz.

O fascinante é que, por muito mais que ela ouça, ninguém a vê. Ela e a sua mochila desportiva são mais uma pedra na calçada. “                     

Ana Isabel Varelas

O Pipoca ontem levou o chinelo da minha tia. Ela culpou-me a mim por eu ter andado a brincar com os chinelos da minha mãe. Andámos todos à procura do maldito chinelo até que o meu pai o foi encontrar na rua, debaixo de uma carrinha. E assim a minha tia já pôde ir calçada para casa.

                                                                                     Ana Carolina Santos

Bem , estou num workshop de música.

O formador pede para nos sentar mos no chão em círculo e para colocar-mos um cruz no centro de uma folha em branco. De seguida é-nos pedido para nos concentrar-mos para ouvir-mos os sons à nossa volta para depois os registar-mos.

- Como?

Sim, identificar os sons, de onde vêm e regista-los mas tentando localiza-los o melhor possível na folha, sempre orientados pela cruz que corresponderia ao centro da sala.

Ouve-se: um, dois, já!

Registo então. No lado direito da folha as palavras: click, pá, folha que abana, e cortina que mexe. Do lado esquerdo no canto superior escrevo: lápis que cai, e no mesmo lado mas no canto inferior a palavra: folha a deslizar no chão. Depois o formador diz: terminou o tempo.

Elisabete Fernandes 

Estou deitado no chão e a minha frente está um carreiro de formigas. Uma fila certinha carregando comida. Uma barata esquartejada! Formidável! Apetitosa!

Num buraco da parede está uma formigona. Entra. Desaparece com uma migalha. Tenho vontade de entrar no templo das formigas. E acredito que haja por ai labirintos com tochas, romanos nas catacumbas formiguifas. Agora vou colocar este palito para os impedir de passar. Que confusão. Dispersou-se grande parte do exército na sua missão. Agora vou fazer um círculo com saliva e ver quem conseguirem ultrapassar essa barreira gelatinosa, viscosa e transparente. Fizeram um caminho novo e continuaram a entrar naquela gruta. E eu cá fora a ver.

Paulo Miranda

 

Dois hipopótamos Duda e Bety. Desafio: como é que eles foram parar ao parque de estacionamento da Igreja Católica?

Há festa na aldeia. As tendas dos feirantes começam a chegar, assim como os comes e bebes. O bailarico vai ser na praça principal. O carrossel também chega para animar a população. No entanto, as suas dimensões são exageradas para o espaço que lhe foi destinado. É necessário retirar algumas cadeiras. Quais?

O carro dos bombeiros? O cavalo? A nave espacial? A mota ou a chávena? Não, esta não, as crianças adoram.

A solução encontra-se em retirar os dois hipopótamos, apelidados de Duda e Betty, que são os mais volumosos. E assim foi feito. Eis que surge outro dilema: onde colocá-los. o presidente da junta lembrou: “o parque de estacionamento da igreja tem livre o lugar dos autocarros.

E foi deste modo que Duda e Betty apareceram no parque de estacionamento da igreja.” 

Anabela Chagas

Era domingo de manhã. As pessoas da aldeia tinham os seus melhores fatos vestidos e deslocavam-se todos na mesma direcção.

Duda e Betty estavam de passagem e ao verem tal romaria decidiram seguir o caminho dos demais.

Encontraram um primeiro local de maior concentração, entraram e viram que era o café da aldeia. Como estavam cheios de sede, pediram um copo de leite fresco ao que o senhor do café respondeu amavelmente servindo-os. Depois seguiram. Saíram e dirigiram-se atrás do resto do povo que parecia não ter fim. Andaram, andaram e chegaram à igreja, o sino tocou, fugiu o padre, ficaram os hipopótamos.            

                                                                                                   Nuno Ribeiro

Terminada a missa, as pessoas reúnem-se no adro da igreja católica e deparam-se com dois hipopótamos que pastavam no jardim do parque de estacionamento da sua igreja.

Toda a gente ficou muito intrigada e resolveram chamar o padre para que este, com a sua influência junto das divindades, tentasse desvendar o estranho caso do aparecimento dos hipopótamos ali, justamente no adro da sua igreja.

O padre depois de se reunir com os seus divinos informante veio anunciar que afinal se tratava de Duda e Betty que tinham sido esquecidas pelo circo que ali tinha passado no dia anterio                            

Inês Silva

Duda e Betty dois hipopótamos que viviam no céu decidiram fugir e dar uma volta pela Terra. Roubaram dois pares de asas aos anjos e voaram dali para fora.

Sabendo que só seriam invisíveis em território de Deus decidiram rumar à Igreja Católica mais próxima para beber um belo copo de vinho sagrado.

Apontaram os focinhos em direcção ao chão, mas a pontaria foi fraca e rebolaram pela estrada fora batendo nos contentores de lixo indo parar direitinho ao parque de estacionamento da Igreja.

“Que Sorte!” disseram ao mesmo tempo. Tiraram as asas e entraram.

Anabela Teixeira

Depois de muito procurarem, decidiram relembrar, e dizer todos os sítios onde tinham estado naquela tarde.

Foram ao Circo, mais propriamente à matine da tarde, foram às compras, onde compraram alguns alimentos. De seguida passaram na lavandaria a buscar um fato e por fim foram comer um gelado no largo da igreja.

- Ah! Vamos ver no estacionamento. Lá está a tua mochila, fofinha!

- Mamã, deixa ver. Cá estão eles o hipopótamo Duda e a Hipopotama Bety. Que susto pensei que tinha perdido os meus brinquedos preferidos.

Elisabete Fernandes

A nota que recebera dizia o seguinte: “Bazar às 14h. Dia 02/10. Traga o que não estiver mais usando” Imediatamente dona Cleusa lembrou de Duda e Bety, que desde que a filha os ganhara não paravam de crescer e dar despesas. Os hipopótamos da filha foram presentes da avó, pelo seu aniversário de 14 anos. Agora, com 19, recém saída de casa para morar sozinha, Ana Luísa parecia haver esquecido da avó, da mãe, de Duda e de Bety com o mesmo desleixo com o qual fingia cuidar dos animais enquanto ali morava. Pois dia 02 será o último dia. Levará os dois para o bazar a igreja, que acontecerá no estacionamento e permitirá que todos se livrem de suas tralhas pessoais sem culpa, pois é um bazar beneficente.

                                                                                                 Aline Amsberg(participante via online: Campinas SP/Brasil)

Variante da anterior: Dois hipopótamos Duda e Bety. Desafio: como é que eles se conheceram?

Duda era um pequeno hipopótamo que vinha dum país muito longínquo. Betty era também bastante pequena; ela tinha nascido ali no Zoo.

Eles tinham-se conhecido numa bela tarde de Outono. Nesse momento o ZOO tinha ficado em silêncio para ver qual era a nova encomenda que tinha acabado de chegar. Um empregado abriu a caixa e de lá saiu Duda . Depois colocaram.no na jaula dos hipopótamos onde conheceu betty. A partir desse dia passaram a ser grandes amigos                           

Ana Carolina Santos

 

Texto curto sem pontuação. Tema: um dia na vida de um doente no centro de saúde mental.

MeuDeus MeuDeus MeuDeus MeuDeus MeuDeus Quem sou Quem são Que dizem Que urram

Gente estranha furiosa louca de vestes virgens

Agarram-me berram-me sacodem-me Porque me vestiram nos braços calças de cinco fivelas

Não sabem que as unhas começando nas unhas grandes e sujas dos pés servem para a penetração dos orifícios delas

Ah deixem de me impingir pioneses coloridos que para mim sorriem autoritários e controladores que me magoam a garganta com os dedos que para dentro dela os empurram cujos copinhos brancos e transparentes meus pés de unhas sujas cortam e o vermelho tornam castanho dai-me não cores mas cinzentos como esta casa meu desespero alegria e loucura

                                                                                                    Óscar Pereira

Abro os olhos e vejo o sol a entrar pela janela por isso levantei-me e depois de tratar da minha higiene pessoal dirigi-me para o refeitório onde cumprimentei educadamente os empregados auxiliares que me deram o pequeno almoço e os enfermeiros que me deram a medicação por isso toda a gente estava admirada com o meu bom comportamento e como se não bastasse de igual forma me comportei durante o almoço e o lanche no entanto quando chegou o jantar o caso mudou de figura pois deram-me um prato de minhocas dizendo que era esparguete mas eu não comi pensam que eu estou louco ou quê

                                                                                                              Elisabete Fernandes

Desidério acabado de acordar completamente desnorteado lá foi em desenfreada correria pelo corredor do hospício em busca do magnifico pequeno-almoço apanágio destes locais para desfrutar com a avidez do costume logo após foi-lhe administrada a medicação na sala de repouso e ali ficou à espera que passasse o tempo para a seguinte refeição ou quem sabe com sorte assistir a algum programa televisivo de maneira que ao fim do dia possa ter o merecido descanso típico de quem vive todos os dias da vida num hospício. 

Anabela Chagas

Alfredo Cebola era louco e passava o dia todo às voltas pelo edifício do centro de saúde mental paranormal que tinha como objectivo deixar os seus pacientes mais loucos para desenvolver suas capacidades mentais que fez com que Alfredo cortasse as cebolas sempre na diagonal

Anabela Teixeira

No centro do mundo sagrado segredo paira um louco perdido sem rumo a remar sozinho além escondido na dele  se lixando para os outros o divino bom senso de ser normal perante um Deus escondido que revela silêncio ou ruído insólito

Valdir Lopes

Deitado prostrado no centro o doente foi encontrado quando se descobriu que passava os dias assim deitado prostrado no centro o coitado do doente

 Inês Silva

Novamente a mesma situação quando Janice tenta levar a minha alma e é o que acontece uma vez por semana e preciso brigar pois não posso permitir e tenho que tomar conta cuidar da última coisa que tenho preciso mantê-la por perto levá-la ao sol e jamais urinar durante o sono pois notei que no dia seguinte Janice aparece e ela é arrancada de minhas mãos mesmo sem perceber que consegui enganá-la pois minutos mais tarde ela está de novo salva

                                                                                                  Aline Amsberg

 

ABC, Texto curto em que a 1º palavra começa pela 1ª letra do alfabeto, a 2º pela segunda e assim sucessivamente

Antes da Beleza Cultivava-se a Delicadeza. Eram Eternos Felizes os Grandes Homens. Ideias de Juventude Logravam as Mulheres. À Noite Ósculos Perfeitos de Querubins Roçavam Silenciosamente. Tecem Uniformemente Vermelhos Xailes Ziguezagueados

Anabela Chagas

A Banana caiu do estojo, foi Gertrudes. Havia um inglês janota. Kevin levou Maria no ovni.

                                                                      Ana Carolina Santos

Ai   Bolas  Coloquem as balizas Direitinhas  

Encoste pra  Frente  

Guarda-redes colocado  

Hora de merendar

Início   

Joga a bola      

Levemente   

Manda a bola

Não a bola de Kellog´s  

Ofereça a bola  

Parvalhão  

Quentinho

Rosadinho  

Sou vegetariano Tira o fiambre  

Utiliza a Vela com Xarope com Whisky  

Zenáida

 Paulo Miranda

A bola com defeito estava farta de golos heróicos infelizes. Jogavam longos minutos no Olimpo pois quando rebolava ao soltinha um vincado xadrez ziguezagueado

                                                                                                          Inês Silva

Ainda bates com dois elefantes ferozes guiando um Honda importado; juntos no Kongo levam muralhas, ossadas e pontes quando revelam ser transgressores unindo vodka, whisky, xixi,yorn e zangos.                                

Valdir Lopes

Aranha Biju caminha dominante…Enorme ficando gritou hostilmente impossibilitando João Leviano mastigar nozes ocas e podres. Querendo rir da situação, tolinho uivando, xingando, zombando a aranha biju….

Anabela Teixeira

Azul a borboleta cria dois estranhos filamentos grandes hábeis incapazes jamais de largar a mãe. Nada os parece querer romper e sem tempo ultrapassando a velhinha xanada e o zimbrinho.                             

Nuno Ribeiro

 Aline briga com dois esquilos fumantes. Gritando hoje irritada: joguem longe meu novo ovário. Porque quer reescrever sentidos. Tentou um: virar xadrez: zerdax.

                                                                                                 Aline Amsberg

  

Utilizando o maior numero possível de onomatopeias e interjeições, escrever um curto texto a parti de: “ A madrugada aproximava-se….” (Raymond Queneau, “Exercices de style”)

A madrugada aproximava-se Zum-zum, vento forte, noite gélida, que dramático, parece um problema matemático que “Katrapum” no meu cérebro! Que cansaço; ultrapassa o pesadelo, que gelo meu deus! Ufa, quem me dera uma lareira, não peço mais nada. Ochalá uma lâmpada mágica chegue, “irra” cheguei!Pede uma de cada vez e neste deserto serás rei! Ei, tou no deserto? Que horas são? A madrugada aproxima-se! Ainda bem, são só as primeiras horas; dá-me muitas mais para que possa preencher as mil maravilhas…

 Valdir Lopes 

A madrugada aproximava-se. Ufa! Tinha de se levantar já. Irra! Ainda estava tão cansado. Safa. Mal tinha dormido. Ainda estava um pouco escuro e catrapum! Caiu aterrado no chão. Ai! Bolas grande queda. Ui, ui, ui. Levantou-se. Upa! Tocaram à campainha. Dlim, dlão. Abriu a porta. Crrrrreeeee. Era a vizinha. Blá, blá, blá, blá. Pfff. Pum, fechou a porta. Vestiu-se, apertou o fecho das calças, zip! Lavou-se Splash, splash, splash. Bebeu um copo de água, glu,glu,glu. Saiu de casa e fechou a porta, clic! Entrou no carro. Vruuummmm. Pipiiii.

                                                                                              Anabela Chagas

 A madrugada aproximava-se tic-tic, porém repentinamente plim abro os olhos e zás percebo que estou em outro corpo. Levanto crec nas costas, caminho plac plac plac até o banheiro e tchân: rosto de um velho no espelho. Então tuc coloco a dentadura, chip abro o zíper da calça e brriii vejo-me a urinar. Clac o joelho dói e corro novamente para o quarto quando prráá caio no chão, mééééw bem em cima do gato. Pff decido não levantar mais.

                                                                                                  Aline Amsberg

 

Escrever texto curto sem utilizar o verbo « ser »

Vamos, vamos! Não podes usar esta palavra. Ditadura? Viva a liberdade! Nos tempos mais antigos os ventos sopravam a uma velocidade que ainda hoje pensasse muito apreciado por grandes magnatas pois, apercebem-se que gera muita electricidade.

A paisagem da montanha mudou drasticamente. Acordo de manhã! O que eu vejo? Hélices gigantes. Disseram que a electricidade gratuita vinha do vento, mas todos os meses vou pagar a factura.

Não vejo novelas, não vejo futebol, lavo a roupa no tanque, tenho uma lamparina, faço torradas a lenha…

Não me chateiem porque não consumo electricidade.

 Paulo Miranda

 Eu homem menino pai filho irmão amigo,

Feliz, sorriso, triste, sério,

Perdido vagabundo vento fugidio

Escondido fantasma memória

Presente passado. Achado acarinhado

Apaixonado mesmo distante e frio mas

Sempre eu.

Tudo nada talvez. Quem quer saber?

Eu não.

Chega de surpresas e revelações, não há pressa.

A vida é longa e a morte está ainda longe,

A curiosidade matou o gato e eu sou pessoa de cão.

Óscar Pereira

 Estávamos no Outono e as folhas abandonavam as árvores como se de frutos maduros, prontos a colher, se tratassem. E assim começavam a ficar as árvores despidas. Prontas a receber o Inverno que não tardava.

                                                                                               Anabela Chagas

Palavras…

As folhas volteiam

Nas rodas do vento

Contando segredos

Passados, presentes.

Com elas serpenteiam

Palavras quebradas

Não ditas, inauditas,

tão tolas, tão frágeis.

Volteiam as folhas

Visões impossíveis

Nas voltas do vento

Vivências passadas.

Nas voltas da vida

Naufragam palavras

Quebradas, caladas,

Imagens paradas.

Daniela Daniel

 

Porquê? Não!

Então saiu sem dizer nada?! Nem sequer explicou o motivo.

Raios!! Se eu pudesse! Despedia-a em três tempos.

Ai, meu Deus, como os tempos estão mudados.

Já não se pode fazer nada.

Não se faz isto, porque…

Não se faz aquilo, porque…

Aonde é que isto vai parar?

E agora esta!

Mas que bicho lhe terá mordido? Eu já tinha reparado que andava estranha! Mas daí a fazer o que fez!

Raios partam!

                                                                                      Elisabete Fernandes

Uma manhã muito ventosa fazia o cabelo longo de uma princesa eriçar-se. Ela morava num castelo alto e muito bonito.

                                                                                      Ana Carolina Santos

 Acabo de chegar. Está frio e vejo um lugar pequeno onde terei que ficar até segunda ordem. Receberei todos os dias a visita do Minotauro. Eis algo que não me permito negar. Lembro de ter ouvido uma vez que o câncer acontece porque uma célula se esqueceu como morrer. Até hoje este pequeno poema me comove. Penso que aqui ocorrerá o mesmo, esquecerei de morrer, porque com tantas paredes brancas e com esta sufocante falta de janelas. Amanhã chegará o Minotauro pela primeira vez e então darei início a minha existência cancerígena. Espero mesmo fazer muitas vítimas, mas que todas caibam em uma caixa quando juntas e empilhadas. 

Aline Amsberg

 

Microconto: “quando acordou o dinossauro ainda estava lá” Augusto Monterroso

Ela chegou tarde mas ainda encontrou estacionamento.

Fora um feliz acaso encontrá-lo a uma hora tão inusitada.

O côro ensaiou no corredor pois o maestro esquecera-se da chave.

Daniela Daniel

 João acordou, foi ao poço buscar água, caiu e morreu afogado.

 Aninhas não cresceu com grande beleza, fez uma cirurgia plástica e virou Miss.

 O sol nasceu e passado umas horas pôs-se                                                     

Anabela Chagas

 Ele queria a princesa, mas ela fugiu…Foi quando comprou um cavalo e conseguiu apanhá-la.

A flor cheirava bem até que foi colhida, ficou triste durante cinco dias e morreu.

O sol nasce para todos…Eu pelos vistos ando escondida.

Anabela Teixeira

Depois daquilo, soube que jamais voltaria a cozinhar.

Foi o momento em senti pela última vez o cheiro daquelas flores.

 Ainda hoje ouço o som das grades quando deito num colchão de palha.

Aline Amsberg

 

Tautogramme” : Texto curto, “nonsense” em que todos as palavras (ou quase todas) começam por T:

Todavia, tudo tem tempo tangente a tanta tolice. Tão transparente, trespassa-se! Todo o telhado tecido em teia é tolice! Tentar tanto para ter tachos torcidos e telas tapadas?

 Valdir Lopes 

Todos teriam tapado o tacho também tenho tantas tulipas todas toscas tombaram em terra trituradas. Tobias tocava tambor com um taco todas as tardes. Tolos tentavam tirar o tinto da taberna. As tripas tostadas tremiam tardias tão tarde se trincavam. O touro trotava na taiga.                                                                                   

Anabela Chagas

Todos têm tamanha taradice por Tan-Tan. Tiveram que tomar Tijuana Tónica e triparam…Tan-Tan também tomou. Todos tombaram…turma tão tonta

Anabela Teixeira

Tento trair todos teus traços. Todavia, tenho tanta tontura todo tempo. Também traçar tuas teimosias, trancar teus tremores – tremores terrestres -, tamborilar teu timbre, trombar tua voz, tocar tuas tetas, tingir tuas tranças. Tanto tentei, tanto trabalhei. Terminei tombada, trancando o trânsito, travando o tráfego, truncando o trevo. Tramando: tudo termina; termina tristemente.

Aline Amsberg

“Lipogramme” Texto curto, “nonsense”,  no qual nunca se utiliza a letra E (Georges Perec “La disparition”)

Palavras cruzadas dum livro, cruzaram fotos, iguais as palavras, num todo, formam um. Um só caminho, vai dar a um único ninho…Viva ao vinho…Loucas as madrugadas cruzadas com palavras do livro. Mais um pinguinho? Calma lá amiguinho…

Valdir Lopes

 O pinhal vasto, com troncos altos já idosos, a caruma castanha inunda o solo, húmido da chuva.

Anabela Chagas 

 Sabia do tipo quadrado caminhando por ali. Sabia ainda quando tinha traços octogonais, pouco disfarçados, por baixo ou por volta dos ângulos ou argolas. Mas agora transita quadrado, pouco brilhoso, com gosto por um virtual da volta do corpo pouco consigo ignorar quando ganho lírios nos ouvidos. Aqui ainda posso diagnosticar: não caí à toa, mas com toda a honra digna das minhas contínuas golfadas de vômito.

Aline Amsberg

 Texto a partir das palavras sugeridas pelos participantes: cansaço, escaganifobético, indecisão, consensual, escada.

-Seu escaganifobético!! -Gritei!

Olha o ranhoso! Então está sempre mal disposto! Que cansaço. Que indecisão. O que vai fazer!? E lá tenho eu de aparecer, ser consensual e por ordem naquilo.

- Seu escaganifobético!

Gritei-lhe eu, do cimo da escada!

Elisabete Fernandes

Desci escada, subi escada. Desci escada, subi escada. Mas que grande indecisão!

Desci escada, subi escada, mas já sofria de um enorme cansaço…Até que apareceram os meus vizinhos e foi consensual: “Deixa de ser escaganifobético e entra em casa por favor!!!”

Anabela Teixeira

 Estou nesta indecisão, cheio de cansaço por causa da tal escada consensual que me deixa cada vez mais  escaganifobético sem saber se subo, se desço ou se fico onde estou.

Valdir Lopes

 Ainda que existisse alguma indecisão da parte de Jorge, era consensual! O seu cansaço era tal que não iria conseguir subir a escada, além de que esta era demasiado escaganifobética.

Anabela Chagas 

 

 Rexo o marciano, decide visitar vários planetas durante as férias e conta num “diário de bordo” as suas férias no planeta Zyva-Zéro, no planeta Terra, na Lua, Júpiter e Saturno…

Rex, o Marciano, homem espontâneo, queria um mundo sem tamanho, vira num anúncio uma promoção e melhor não poderia ter ganho. Uma viagem inter-planetas num cometa de luxo, era tudo pra ele menos estranho. Sempre sonhara poder alargar o seu universo e descobrir outros encantos. Todo lunático, lá seguiu viagem sem perder a órbita galáctica que o levaria à descoberta de novos horizontes, ora na horizontal, ora na vertical, desde que ninguém lhe pisasse os calos, continuaria vislumbrando a lua e seus eternos regalos. Por entre os planetas e milhares de estrelas, lá avistou p globo azul que tanto tem sondado o seu pedaço de céu. Mal pisou na terra, começou o Kreu, o Ku-duro e a dança do véu…

Valdir Lopes

Meu nome é Rexo e finalmente depois de 102 anos a trabalhar na parte luminotécnica do meu planeta e fartinho de conjugar várias tonalidades vermelhas e rosas a este  planeta do diabo terei direito a um ano de férias! Xing- Clanc Urra! A agência de viagens “Vai e Volta” conseguiu arranjar-me um pacote de viagens excepcional!Zyva-Zéro, Terra, Lua, Júpiter e Saturno seriam os destinos destas férias tão esperadas e a um preço de abanar as antenas!!

Primeiros 23 dias em Zyva-Zéro–  Estou cansado de aqui estar. Estes festejos sem festa e adoração ao Deus Zéro começam a deixar-me agoniado. Todos os dias, logo bem cedinho, ouve-se pelas ruas: ZYVA-ZÉRO! ZYVA-ZÉRO!ZYVA-ZÉRO! Que quer dizer viva ao zero…Não se passa nada…este vazio de coisas, neutro em paisagens fez-me decidir: amanhã parto para a Terra.

66 dias no Planeta Terra–  Cheguei! Que planeta fantástico! Dizem que por cá é verão. Disfarcei-me de inglês e fui para o Algarve. Praínha, calor, noites loucas…e que meninas tão doidas…Apanhei a minha primeira bebedeira e não gostei. Continuo com os meus batidos de fruta. Amanhã parto para a Lua. Que pena que tenho…daqui a 102 anos regresso novamente.

42 dias na Lua–Astro estranho. Desde que aqui cheguei que me sinto aluado e até parece que virei poeta:

Lua como me encanta o teu jeito

Ganhaste a minha admiração e respeito

Pois não vês defeitos

Neste marciano suspeito e desfeito

Por um amor que não é perfeito…

Amanhã vou-me embora. Amo-a demais.

20 dias em Júpiter– Cheguei e perdi-me! E voltei a perder-me!!! Perdido estou…Demasiado grande este planeta! A única coisa boa são estes anéis que formam vias rápidas, mas infelizmente vão dar sempre ao mesmo sítio! Que chatice….amanhã vou contratar um guia.

Anabela Teixeira

Rexo, o marciano, depois de muitos anos luz de trabalho, decidiu fazer o merecido descanso. Já tinha planeado com alguma antecedência uma viagem a Zyva-Zero, Terra, Lua, Júpiter, Saturno. Até já tinha comprado um caderno que intitulou “Diário de Bordo”.

Chegado o dia, malas prontas e ansioso, entrou na sua mota espacial destino a Zyva-Zero. Chegou, então, a um local muito rochoso, que lhe permitiu furar de imediato os dois pneus da sua mota. Criatura supersticiosa, Rexo, decidiu, de imediato, abandonar este local, considerando que este evento seria mau agoiro.

Seguidamente, aterrou na Lua, lá esteve algum tempo. Fez algum esqui e ainda pôde mergulhar no Mar da Tranquilidade. Porém, depois de uns dias começo a sentir-se só, pois não avistou ninguém no tempo que permaneceu.

Já em Júpiter aproveitou pouco, uma vez que a população estava toda em alvoroço devido às próximas eleições. Rexo queria gozar as suas férias, beber uns copos e, até quem sabe, conhecer algumas raparigas, não queria falar de politica, assunto, aliás que abominava.

Seguiu-se Saturno. A estada foi boa ate que chegaram as primeiras chuvas, trazendo inundações. Rexo começou a sentir-se desesperado. Os seus planos de férias não estavam a decorrer do modo que tinha planeado e sonhado. Restava-lhe Terra e decidiu que não iria desistir. Nunca tinha estado neste local. A viagem foi algo longa, mas com paisagens magníficas.

Aterrado em Terra, ficou maravilhado com a luz e as cores. Hospedou-se na pensão Nova Estrela, que possuía grandes condições, incluindo um SPA.

Rexo usufruiu de tudo. Descansou, passeou, dançou, saltou, embebedou-se e afogou-se.                                                                                             

Anabela Chagas

 

Um dia na vida de uma nota de 20 euros. Texto Curto

Estou ainda novo em folha, quentinho, cheio de cêntimos no meu “eu”, tão esticadinho que não me apetece viajar de carteira em carteira ou de mão em mão, mas é a vida! Já me vieram buscar; vou ser moeda de troca ou vou estar envolvido em batota, que trafulhice! Mal pegaram em mim, deixaram-me cair, não andarei perdido por muito tempo, isso é certo! Tanta gente à minha procura que não corro o risco de sentir uma inflação. Sinto uma mão e uma voz,  ” Achei”! Pronto, já rendi. Mais uma pra caixa…

 Valdir Lopes

Bem, vou-me apresentar. Chamo-me 20€ e digo-vos já que não gosto. Pois como no mundo dos humanos Maria é um nome corriqueiro, no mundo das notas acontece exactamente a mesma coisa. Ainda por cima nome de pobretana pois não há nada como o nome da nota de 500€, isso sim, apreciada e admirada por onde passa.Mas deixemo-nos de lamechices.

Não me lembro como fui parar a uma caixa de multibanco, sei agora se que chama assim, mas o que é certo que me senti nascer a partir do momento eu que saí por aquela ranhura.

E fui parar às mãos de quem, perguntam vocês?

De um estudante, mais propriamente de um caloiro. Bem, não posso dizer que naquele momento até me senti um pouco vaidosa pois era a única na sua carteira. Ai, como ele me olhou…

Pela tardinha dirigiu-se a um sítio, bar fui o que ouvi dizer, e ai pousou-me num balcão. Foi precisamente ai que vi que, não era a única, haviam mais, muitas mais…

Elisabete Fernandes

Foi naquela manhã que ela acordou e se apercebeu que estava algo leve e achatada. Levantou-se um pouco a custo, pois tinha dormido com a janela do quarto aberta e corria uma brisa, porém, lá conseguiu. Olhou-se ao espelho e ficou assustada, pois estava azul. Foi então que, nesse susto, começou a correr em direcção à rua. Mal abriu a porta e colocou uma ponta do pé, ou do suposto pé no chão, foi caçada por uma mão que parecia estar à sua espera. Quando deu por ela, estava num local escuro, com cheiro a roupa lavada e supondo que estaria no bolso de umas calças. De repente, sente que a mesma mão lhe toca e vê toda alguma claridade enquanto passava para outra mão, que a coloca no que parecia ser uma máquina registadora.

Ali fica algum tempo, ouvindo por vezes um “tlim”. Eis que chega a sua oportunidade de sair da caixa… entrando num outro local escuro, com cheiro a couro.

Por ali esteve alguns dias, tentando adaptar-se à sua nova e estranha vida. É então que sai mais uma vez da escuridão e ao sair, como que ao passar para a outra mão, que não a segura, vai cair num charco de cheiro pestilento para nunca mais sair.

Anabela Chagas

“O que é isto, dona? Tá tentando me passar pra trás? Esta grana é falsa, é? Que nota é esta?”

 “São 20 Euros, os DVDs custam 5 Reais cada, não é? 5 DVDs são 25 Reais, isto é menos do que 20 Euros.”

“Aqui não aceita Euro, aqui é só Real.”

Senti-me um tanto irreal; fui devolvido à bolsa. Entendi finalmente por que no café da manhã a dona da padaria se mostrou um tanto relutante antes de me aceitar. E logo saí daquela caixa registradora chegando a um bolso quente e suado ao lado de uma caneta, onde alguns semelhantes me olharam feio por causa de minha cor e tamanho. Entendi por que fiquei ali muito tempo como esquecida até chegar nesta bolsa e encontrar outras como eu. O cheiro aqui me faz sentir em casa, embora o pensamento de que jamais serei Real me incomode um pouco ainda.

Aline Amsberg

Com uma chave: lembrar-se ou imaginar o que essa chave já abriu… 

Esta chave abre um cofre secreto escondido por trás de uma parede falsa onde está uma coroa de diamantes. Esta chave abre um cofre secreto por detrás de um quadro onde estão barras de ouro maciço. Esta chave abre um porta secreta onde está escondida um bela princesa.         

                                                                                    Ana Carolina Santos

A chave

A chave é, ao mesmo tempo, um objecto insignificante e imprescindível.

Uma chave abre os segredos guardados num diário de adolescente; os tesouros esquecidos num velho baú ,por uma terna avó, a porta do cacifo onde ansiosos livros aguardam a entrega dos testes; a caixa de Pandora e os seus tenebrosos mistérios ou , simplesmente, a porta de nossa casa.

Simplesmente?

Ao abrirmos a porta da nossa casa a alguém, abrimos, ao mesmo tempo, as nossas alegrias e angústias, as nossas paixões e solidões!

Assim, uma chave pode ser indispensável para aceder a um coração!

Daniela Daniel

A chave abre a porta da adega do meu avô, onde há pipas e tonéis de vinho. Lá dentro, atrás da 3ª pipa há uma pequena porta, mas essa porta é aberta apenas em momentos especiais pelo meu avô com a mesma chave e dá acesso directo à vinha. A vinha tem videiras antigas e por trás da terceira grade há um portão que abre com a mesma chave e dá acesso directo a todas as vinhas do mundo.                                                   

Nuno Ribeiro

A pequena chave dourada era de um dourado gasto e velho, sinal de longa vida, e era fria como um cubo de gelo liquefeito.

Não obstante a sua pequenez, o dourado sem brilho e o quase frio dela, tinha existido uma altura em que nada era assim, era precisamente o oposto

Embora ninguém se aperceba; porque há coisas cujo espírito e falta dele não nos permitem vislumbrar; foi esta chave idosa e insignificante que ainda o mundo era virgem, grande e nós éramos nada, permitiu a entrada dos grandes males e maleitas. Do carácter e da vontade humana que hoje se afigura sem brilho, fria e pequena como a chave.

Umas pequenas e delicadas alvas mãos em conjunto com uma grande curiosidade chamada Pandora, usaram essa pequena coisa ignorada (quando a temos) para do cofre soltar todos os castigos devidos, temidos e crescentes neste nosso mundo, inclusive o interior.

Óscar Pereira

Agora com quase tudo electrónico, pensaram que podiam tirar o lugar à chave; ela que tantas vezes já nos livrou de ficar na rua como nos já nos deixou lá ficar. Essa que já andou de fechadura em fechadura, até parece universal, mas não é! Já abriu portas, malas e até cofres, pré-históricos, claro, mas abriu!

Valdir Lopes

- A tia e a avó vão sair!!

- Vão?!

- Vão à igreja rezar o terço.

- Temos de ser rápidas.

- Bolas nunca mais saem!!

- Olha, já estão a descer as escadas.

- Saíram! Eu vou procurar no quarto da avó e tu procuras na sala de jantar.

- Já encontras-te?!

- Não. Já vi em todo lado. Se calhar mudou-lhe o sítio.

- Vê bem na primeira gaveta da cómoda, às vezes costuma pô-la lá.

- Encontrei-a!!

- Onde estava a chave?!

- Debaixo do papel que forra a gaveta, bem no fundo à esquerda.

- Eu abro a porta do armário, já sei o jeito. Não podemos comer muitos se não a avó dá conta que andamos cá.

- Olha, estes derreteram, estão colados.

- Chupa-os com os papéis.

- Já tenho os dedos colados.

- Olha, vem lá a avó, vai esconder depressa a chave, não te enganes no mesmo sítio.

Elisabete Fernandes

Acrescentar um adjectivo às seguintes palavras: janela; comboio; manhã; móvel; amigo; afastamento; violino; remédio; cabelos; hóspede; lembrança; ponte; água, luz

(escolher três e escrever um texto curto)

Amanheceu no hotel. Estava uma manhã luminosa, até que o mais irritante de todos os hóspedes teve a péssima lembrança de pegar no seu desafinado violino e começar a tocar, arruinando a luminosa manhã.

                                                                                                          Inês Silva

No comboio silencioso a viagem ainda agora começara e já se sentia o cheiro a remédio podre que saia daquela caixa de medicamentos esquecida na última viagem, há 25 anos atrás. O homem que seguia à minha frente, repara no meu cabelo sujo e foge para outra carruagem. Estava agora apenas acompanhado pelo meu violino avariado que tocava apenas silenciosamente.

                                                                                                   Nuno Ribeiro

Que estranho, um hóspede rendido a uma lembrança discreta que faz uma ponte aguda em busca de um remédio próspero, a fim de encontra a causa da loucura que enlouqueceu todos à sua volta.

                                                                                                   Valdir Lopes

Gosto de água fresca. E foi precisamente por isso que quando bebi aquele maldito copo não senti que o remédio estava estragado. E pronto, engoli tudo sem dar por nada. Escusado será dizer que quando cheguei ao hospital tinha o corpo com manchas, a língua verde, os olhos esbugalhados e o cabelo arrepiado.

                                                                                      Elisabete Fernandes

Era uma manhã chuvosa de Janeiro. Maria olhava-se ao espelho enquanto penteava os seus cabelos crespos, sonhando com o seu amigo distante.

Ao passar pela rua, olhei, por acaso, aquela janela aberta e foi então que vi aquele violino quebrado, que me trouxe à memória aquela lembrança esquecida.

                                                                                       Anabela Chagas                                       

O remédio é ruim mais do que os anteriores e parece não abafar a dor como eu esperava. Contar com aquele remédio para conseguir ir ao trabalho é como caminhar sobre um desfiladeiro usando uma ponte instável. Algo em que não se pode confiar. No entanto, por hora não há outra opção, é a única maneira de conseguir, numa roleta russa, um dia inteiro sem aquela dor a puxar-me a pele inteira. Um caso raríssimo de fotossensibilidade. A luz quando toca minha pele é quente demais, tão quente que urge o escuro. Escuto-me então com essa dor lancinante mas só quando o remédio não funciona.

Aline Amsberg

 

Publicidade : Inventar textos publicitários hilariantes joviais, ou cáusticos (mas enganosos) sobre um produto ele mesmo fantasmagórico, inútil, miserável, engraçado, requintado ou old school.

 Chocolate Ripopino, o chocolate para toda a família. Na compra de dois oferecemos nenhum.

                                                                                             Anabela Chagas

Adquira um corpinho queijinho da serra duro! Não pares, não pares! É queijinho durinho, da serra, da serra!!!

 Chouriça caseira é mesmo à maneira! Salpicão é do bom e é do Manel, compra um com pouco papel…

                                                                                                 Nuno Ribeiro

 Cadeira sem assento procura pessoa sem cú.

 Zingado o produto do mês. Utilizas agora e depois logo vês.

 Troco bicicleta sem rodas por motorizada sem buzina.

                                                                                          Anabela Teixeira

 Capacete anti-rotina:

“Diga adeus aos dias tediosos e diga olá às novidades! Adquira já o seu capacete anti-rotina: com ele, você será atropelado por ideias e nem mesmo os domingos terão aquela textura de meia suja ou aquele gosto de pneu usado.”

(mulher fala) “Não consigo mais passar um dia sem meu capacete anti-rotina. Quando estou usando, não enxergo mais meu marido, meus filhos ficam paralisados e os vizinhos emudecem. Então vou ao meu atelier e crio imagens e textos fantásticos, desenvolvo sistemas computacionais, desenho plantas arquitectónicas e invisto em acções.”

Aline Amsberg

Trabalhos de grupo

Caracterizar personagens pelas suas preferências alimentares:

-pêssegos; ananás com iogurte; crepes com queijo ralado; peixe assado; salada de alface, pepino e cebola; feijão branco com amêndoas; churrasco com brandy; pudim de laranja; frango com amêijoas; feijoada, couve-flor gratinada.

Pêssegos: A Carlinha e a sua colecção de caroços.

Ananás com iogurte: Chico que é vegetariano.

Crepes com queijo ralado: Um Francês imigrante em Portugal.

Peixe assado: A Josefina que tem problemas de estômago.

Salada de alface: A Lili anoréctica e as suas manias de dieta.

Pepino com cebola: Ambrósio que sobre de vampirofobia.

Feijão branco com amêndoas: Um talibã.

Churrasco com brandy: O Pai Natal na véspera do Ano Novo.

Pudim de laranja: A Joaninha enquanto espera que lhe nasçam os dentre da frente.

Frango com amêijoas: A Elisabete que é aventureira e as suas tentativas para sobreviver.

Feijoada: O Casimiro que já não passa nas portas mas apesar disso acha-se muito sexy.

Couve-flor gratinada: O desportista e a sua comida da mama.                                                                     

Elisabete Fernandes Carolina Varelas

 

Pêssego: Zé Maria. Cabeça redonda e bochechas vermelhas.

Ananás com Iogurte: Bill The Kid. Corte de cabelo à Rock a Billy. Gordo e ácido.

Crepes com queijo ralado: Suzete. Agarrada ao cavalo, sem dentes desde os 12 anos.

Peixe Assado: Asdrubal. Boa pinta, mas mal cheiroso.

Salada de Alface: Conhecido por pézinhos. Jogador do Sporting e detesta tomates.

Pepino e cebola: D. Assunção. 87 anos de idade. A maior engatatona do bairro.

Feijão branco com amêndoas: Joãozinho. Peida-se que nem um cão, em tom abafado duas vezes seguidas. Usa suspensórios.

Churrasco com Brandy: Fifi. Tia de Cascais. Tesa que nem um carapau. Alcólica.Prostitui-se em troca de brandy e duas coxas de frango.

Pudim de laranja: Lisbélio. Panisga, anafadinho e bronzeado. Canta o fado.

Frango com ameijoas: Arturzão. Caçador de borboletas. À noite é travesti.

Feijoada: Salete. Anoréctica. Modelo de pés descalços. Feia como tudo.

Couve Flor gratinada: Porfírio. Couveiro da cidade. Persegue velhinhas de cuecas nas horas vagas.                                                                         

Anabela Teixeira e Nuno Ribeiro

 

Diálogo entre duas personagens conhecidas que chegam ao mesmo local em meios de transporte diferentes:

 Zé Carioca e Betty Boop

“O Zé Carioca vem a pé, apesar de ter bolhas nos pés, porque não tem dinheiro para o ónibus. A Betty Boop vem de boleia num carro de um estranho, que é surdo-mudo. Zé Carioca decide parar junto de um restaurante de luxo para fingir-se de arrumador de carros; precisamente onde o surdo-mudo quer levar a Betty Boop a jantar. Esta intercede pelo surdo-mudo, saindo do carro para falar com o charlatão:

Zé: Oi! Qui máquina! Eu trabalho por qui posso arrumar seu carro?

Betty:  … Eu conheço-o de algum lado… A sua cara é-me familiar…

Zé: ‘Cê me deve ter confundido com meu primo Tião qui trabalha lá nas América! Eu não conheço a Sinhá, não!

Betty: Ah! Mas eu tenho a certeza que já vi essas fuças de papagaio nalgum lado…

Zé: ‘Cê não me ofenda, minina! Eu sou um cara charmoso, viu? E eu não sei porque pagam a você para posar em toda a parte: a Rosinha é muito mais bonita.

Betty: Respeitinho que eu não lido com gente da sua laia!

Zé: ‘Cê é uma sem vergonha, viu? Mostrando as pernas p’ra todo o mundo!

Betty: Não é maior crime que mostrar esse seu bico horroroso!

Zé: ‘Cê não gosta, é? Então vou-lhe dar umas belas picada para você tomar juízo!

Quando o Zé Carioca começa a agredir a Betty Boop, o surdo-mudo sai do carro tentando socorrê-lo. O Zé Carioca aproveita a confusão para roubar o carro e, por fim, vendê-lo por peças.”

Daniela Daniel e Ana Isabel Varelas

 

Pateta e Sócrates

O Pateta e o Sócrates encontraram-se em Espanha, na estação ferroviária. O Primeiro vinha de Patópolis, na sua acelera, e o segundo vinha de Lisboa, no seu TGV e conversam:

Sócrates: Senhor Pateta, por que é que não veio no meu TGV?

Pateta: Eu não vim de TGV porque o tempo que poupava não era assim tanto. N a minha acelera, paro onde quero, vejo a paisagem com calma o que não podia fazer no seu TGV.

Sócrates: Não fale mal do meu TGV, não seja inoportuno. O meu TGV é muito bom e eu sou uma pessoa muito importante. Não seja pateta, Senhor Pateta!

Pateta: O quê? Veja lá como é que fala sua sucata!?

Sócrates: Sucata? Eu? Olhe para o meu TGV e o meu Magalhães!!

Pateta: Já vi que não vale a pena perder tempo consigo. Eu vou-me embora na minha acelera e você … você vá na sua sucata! Veremos quem chega primeiro!

 E lá foi ele, orgulhoso, enchendo de fumo o fato do Sócrates…

Ana Carolina Santos e Inês Silva

Hitler e Hulk

Hitler descia a ladeira a toda velocidade na sua trotinete quando avista o gato da vizinha. Faz-lhe pontaria, mas falha acertando num paralelo que o faz cair e perder a roda da frente.

Entretanto Hulk pedala calmamente no seu triciclo azul bebé quando vê uma roda a passar a alta velocidade. Continua e depara-se com Hitler a pedir boleia.

Hulk- Então muito bom dia!

Hitler- Só se for para si! Eu perdi uma roda da minha trotinete!

Hulk – É grande ou pequena?

Hitler – Ó verdinho, olha lá para o meu veículo e diz-me o que é que achas!!!

Hulk- Eu não acho nada. Só percebo de triciclos!

Hitler- Argh! É pequena! Por acaso viste alguma coisa?

Hulk- Por acaso vi qualquer coisita…

Hitler- ONDE? FALA OU FUZILO-TE!!

Hulk- Ah!Ah! Urrrr…Estou cheio de medo, ó bigodinho!

Hitler- Hum…Bem, é melhor resolvermos isto de outra maneira…

Hulk- Acho muito bem!

Hitler- Então como é? Dás-me uma boleiazita até à minha roda?

Hulk- Sobe às minhas cavalitas e vamos embora.

Hulk tocou a buzina duas vezes e saiu a pedalar. 

Anabela Teixeira e Nuno Ribeiro

 

BIO utilizada para Workshop de Escrita Criativa

Exercices de style

de Raymond Queneau

Editeur : Gallimard

Collection : Folio

ISBN-13: 978-2070373635

La littérature potentielle de Oulipo

Editeur : Gallimard

Collection : Folio

ISBN-13: 978-2070324781

La Disparition de Georges Perec

Editeur : Schoenhofs Foreign Books

Collection : L’Imaginaire

ISBN-13: 978-2070715237

Microfictions de Régis Jauffret

Editeur : Editions Gallimard

Collection : Folio

ISBN-13: 978-2070355686

Paradis de Philippe Sollers

Editeur : Seuil (16 mai 2001)

Collection : Points

ISBN-13: 978-2020499965

Tout le monde devrait écrire de Georges Picard

Editeur : José Corti Editions

Collection : Domaine français

ISBN-13: 978-2714309228

Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa de Vários

Edição/reimpressão: 2008

Editor: Exodus

ISBN: 9789898048752

 

Ler como um Escritor Um Guia Para Quem Gosta de Livros e Para Quem Deseja Escrevê-los de Francine Prose

Edição/reimpressão: 2007

Editor: Casa das Letras

ISBN: 9789724617374

Colecção: Humanidades

On Writing by Stephen King

Publisher: New English Library

ISBN-13: 978-0340820469

Ernest Hemingway on Writing by Ernest Hemingway (Author), Larry W Phillips (Author)

Publisher: Pocket Books; 1st Touchstone Ed edition

ISBN-13: 978-0684854298

Master Class in Fiction Writing: Techniques from Austen, Hemingway, and Other Greats: Lessons from the All-Star Writer’s Workshop by Adam Sexton (Author)

Publisher: McGraw-Hill Contemporary

ISBN-13: 978-0071448772

The Elements of Style by William Strunk Jr. (Author), E. B. White (Author)

Publisher: Longman; 4 edition

ISBN-13: 978-0205309023

The Cambridge Introduction to Creative Writing (Cambridge Introductions to Literature) by David Morley (Author)

Publisher: Cambridge University Press

ISBN-13: 978-0521547543

75 Short Masterpieces by Roger Goodman (Author)

Publisher: Bantam; Reprint edition 

ISBN-13: 978-0553251418

Story: Substance, Structure, Style and the Principles of Screenwriting by Robert McKee (Author)

Publisher: Methuen Publishing Ltd

ISBN-13: 978-0413715609

Leave Me Alone, I’m Reading: Finding and Losing Myself in Books (Vintage) by Maureen Corrigan (Author)

Publisher: Vintage Books USA; Reprint edition

ISBN-13: 978-0375709036

So Many Books, So Little Time: A Year of Passionate Reading  by Sara Nelson (Author)

Publisher: Berkley Publishing Group; Reprint edition

ISBN-13: 978-0425198193

Uma Resposta para '6- Escrita Criativa “Página Branca”'

Subscrever comentários com Feed RSS. ou TrackBack para '6- Escrita Criativa “Página Branca”'.

  1. aline. disse,

    Olá! vim aqui para dizer que fiquei muito feliz em poder participar fazendo os exercícios. e adorei os textos que li neste site, rolei de rir e achei-os criativos demais! obrigada pela oportunidade.

    Um grande abraço a todos, meus colegas virtuais.


Deixar uma Resposta